O tempo e o clima

01/09/2015

É muito comum haver confusão entre o que é tempo e o que é clima. Porém, estes são dois fenômenos diferentes, mesmo que se encontrem inter-relacionados.

No dia-a-dia, a previsão do tempo é a estimativa do que se espera que ocorra em termos de temperatura e de precipitação pluvial em um curto período. Nesse sentido, o tempo está constantemente mudando: em um certo dia pode fazer sol pela manhã, mas chover pela noite, ou podemos ter uma semana chuvosa e outra ensolarada. Já a sucessão dos tipos de tempo registrados por um determinado período é o clima. Assim, para definir o clima com maior exatidão, é necessário considerar a média das variáveis climáticas em um longo período.

De acordo com Mozar de Araújo Salvador, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), para fazer a média do clima são utilizados dados do período médio de 30 anos. “Já a previsão do tempo é questão de dias, semanas”.

Para o nosso tema, cabe destacar que a mudança do clima influencia a frequência e a intensidade desses eventos (temperatura, chuvas, etc.).

Variabilidade climática

É importante esclarecer o conceito de variabilidade climática. A ciência descobriu que o clima varia naturalmente, independentemente das ações antrópicas, ou seja, mesmo que o ser humano não habitasse o planeta, as estações do ano não teriam sempre as mesmas temperaturas. Isso porque, antes de qualquer coisa, o clima é dependente da intensidade da radiação solar.

A aproximação e o afastamento entre o Sol e a Terra, em determinados ciclos, determinam o maior ou menor grau de incidência de radiação solar e, portanto, o grau de aquecimento ou resfriamento da Terra ao longo de períodos históricos.

Especialistas destacam que o impacto da variabilidade climática não é uniforme e que, ao mesmo tempo em que em algumas partes do planeta há aquecimento, em outras pode estar ocorrendo esfriamento.

Mozart Salvador lembra que as alterações na temperatura dos oceanos influenciam diretamente a variabilidade climática do planeta. “O exemplo mais popular é o El Niño, que a cada três ou quatro anos aquece as águas do Pacífico. La Niña, por sua vez, esfria o Pacífico e provoca redução na temperatura da Terra”. Ele explica também que o fenômeno chamado Oscilação Decanal do Pacífico – um ciclo mais longo, que leva de 20 a 30 anos e resulta na variação de temperatura do oceano – também influencia diretamente o clima. “Estamos entrando numa fase fria dessa oscilação. Se de fato ela se estabelecer, poderemos ter uma pequena redução da temperatura do planeta”.

Especialistas destacam que o impacto da variabilidade climática não é uniforme e que, ao mesmo tempo em que em algumas partes do planeta há aquecimento, em outras pode estar ocorrendo esfriamento. Assim, em determinadas regiões, o resultado das mudanças climáticas que estão ocorrendo atualmente pode ser o de temperaturas mais baixas em algumas épocas do ano. Mesmo assim, a média de temperatura anual pode ser mais alta. Da mesma forma, em alguns lugares pode chover mais e em outros menos.

Aquecimento ou mudança do clima

As mudanças do clima e o aquecimento global estão inter-relacionados, mas não são o mesmo fenômeno. Como vimos, é natural que a Terra passe por alterações climáticas, esfriando e esquentando em diferentes momentos. “Em séculos passados, lagos ficaram anos congelados na Europa e longos períodos de clima estável foram sucedidos por glaciações”, explica Salvador. Outra confusão comum é pensar que qualquer evento atípico ou extremo é resultado da mudança do clima. Se, por exemplo, há um inverno muito rigoroso, ou um período muito quente, isso não significa que esteja ocorrendo uma mudança climática, pois na história do planeta sempre houve extremos de frio e de calor, independentemente desse tipo de fenômeno.

Já o aquecimento global, no contexto dos debates atuais, é realmente um aumento da temperatura além do natural – e da capacidade da atmosfera em reter calor. Em resumo, a questão do aquecimento da Terra está diretamente relacionada à quantidade de energia que entra (via radiação solar) e sai (via propagação de calor) da Terra.

“Aí entra em cena a polêmica sobre as causas desse aquecimento: qual parcela diz respeito às causas naturais e qual resulta da contribuição das atividades humanas, com o progressivo aumento na concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera nos últimos 150 anos”, questiona Mozar.

Ciclo natural e impactos humanos

Uma questão central no debate sobre as mudanças climáticas globais é se é possível atribuir o claro aumento observado de temperatura às atividades antropogênicas e às emissões de gases de efeito estufa. Nota-se, por intermédio de medidas experimentais, que para todas as regiões do globo os valores registrados de temperatura somente podem ser explicados a partir da ação das chamadas forçantes antropogênicas somadas às forçantes naturais. De acordo com os cientistas, esse fato mostra claramente que as emissões de gases de efeito estufa são os principais responsáveis pelo aumento observado nas temperaturas das diversas regiões do planeta.

Assim o aumento na concentração de gases de efeito estufa e aerossóis na atmosfera – aliado às profundas alterações no uso do solo – fornece evidências fortes de que as mudanças ambientais observadas nos últimos 100 anos são resultantes de uma complexa inter-relação entre ações humanas e causas naturais. Supõe-se que esses mecanismos estejam alterando de forma contundente os ciclos biogeoquímicos e afetando o sistema climático do planeta.

Projeções para o futuro

Pesquisadores afirmam que a temperatura média global já aumentou 0,7ºC nos últimos 100 anos. A previsão é que tal aumento deva ser entre 1,4 e 5,8°C ao longo deste século, tendo o ano de 1990 como base. De acordo com a publicação Perguntas e Respostas sobre Aquecimento Global, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - Ipam, o valor mais provável é de um aquecimento médio entre 2 a 4ºC.

A previsão é que tal aumento deva ser entre 1,4 e 5,8°C ao longo deste século, tendo o ano de 1990 como base. 

Tal aquecimento, afirmam os cientistas, não atingirá o planeta de forma homogênea, pois algumas regiões sofrerão maior impacto do que outras. Em particular, as regiões polares e as tropicais serão afetadas mais fortemente. “Nestas últimas, a temperatura pode aumentar em torno de 2 a 6ºC até 2100. Especificamente na Amazônia, a temperatura poderá sofrer um aumento médio de 1,8 a 7,5°C até 2080, o que traria graves conseqüências para os seus ecossistemas, com perda de habitat e extinção de espécies”, afirma o guia.


Mitigar e adaptar - os verbos do “climatês”

Duas abordagens principais vêm sendo trabalhadas pelos cientistas em relação aos impactos gerados pela mudanças climáticas:

  • Mitigação  – É a intervenção humana com o intuito de reduzir concentrações de gases de efeito estufa. Isso pode ocorrer de duas formas principais: limitando as atividades que ocasionam a emissão de gases e fortalecendo os chamados sumidouros de carbono (por exemplo, as florestas e os oceanos, que têm naturalmente a capacidade de capturar o carbono lançado na atmosfera).
  • Adaptação – É a forma como os sistemas natural e humano podem responder da melhor maneira às mudanças do clima, de forma a reduzir seus danos à qualidade de vida e a explorar as oportunidades benéficas. 

Assim, podemos dizer que a pergunta básica para a mitigação é: como reduzir a concentração excessiva de gases de efeito estufa na atmosfera? Já para a adaptação, a pergunta é: como sobreviver à mudança do clima?

É preciso estar atento ao uso desses conceitos. Uma das razões da necessidade de cuidado está no fato de que as ações de mitigação e adaptação podem ser conflitivas entre si: por exemplo, a instalação de aparelhos de ar condicionado como forma de adaptação às ondas de calor pode provocar um aumento nas emissões de gases de efeito estufa e, consequentemente, contribuir para o aquecimento global, em vez de mitigá-lo.