Atraso no combate ao incêndio consumiu mais de 50% da Terra Indígena Arariboia

03/11/2015

Em entrevista exclusiva ao Mídia e Amazônia, a líder indígena Sonia Guajajara disse que o incêndio que consumiu mais de 200 mil hectares da Terra Indígena Arariboia começou há mais de três meses e poderia ter sido controlado se os pedidos de ajuda dos Guajajara tivessem sido atendidos de imediato.

Na última sexta-feira (30), o Ibama anunciou que o fogo está sob controle mas só será extinto com o início da estação das chuvas, que deveria ter começado há mais de um mês. Mais de 10 mil índios Guajajara espalhados por quase 200 aldeias - além de 80 índios da etnia Awá-Guajá, que vivem sem contato com o mundo exterior - moram na Reserva.

Na semana passada, Sonia esteve em Brasília para acompanhar a votação da Proposta de Emenda Constitucional que tira do Executivo o poder de homologar Terras Indígenas e quilombos (PEC 215), aprovada numa Comissão Especial da Câmara. “É uma batalha atrás da outra”, desabafou a coordenadora da Associação dos Povos Indígenas do Brasil.

Na sua opinião, por que o incêndio tomou estas proporções e queimou mais da metade da Terra Indígena Arariboia?

Não teve controle a tempo. Tem as brigadas lá, os brigadistas indígenas, sem nenhuma condição de trabalho, sem transporte.  Quando começou o fogo e eles começaram a denunciar e pedir o apoio do Estado para combaterem os focos, haviam carros lá em São Luiz esperando botar adesivo. Os carros ficaram três meses lá esperando colocar adesivo do PrevFogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama) para poderem ser liberados. Como não liberaram os carros para os brigadistas trabalharem, o fogo foi tomando conta, foi se alastrando. Quando o Ibama começou a atuar, o fogo já estava sem controle e por isto tomou esta dimensão toda. O fogo ainda continua lá dentro da floresta, tem mais de 100 quilômetros pegando fogo dentro da Terra Indígena. Queimou poucas casas, mas perdeu boa parte do que garante a segurança alimentar, do que garante a floresta em pé. Perdeu roças, perdeu tudo.

Quais são as consequências para os indígenas que vivem na TI?

Houve uma perda enorme de biodiversidade, um prejuízo imenso porque todo mundo que mora ali, vive dali. Empobreceu o solo para o plantio, atingiu as árvores que nos alimentam. Isto sem contar os riachos que, com esta queimada, tendem a secar e é ali que a gente pega nossa água. E ainda tem a questão da saúde, muita fumaça, muita gripe, problema nos olhos. As consequências são em todos os níveis.

Tem mais de 40 dias que os  órgãos do governo estão trabalhando lá para combater o fogo. Já teve apoio do governo do Chile por pressão nossa. O Chile mandou um avião com aquele produto retardante para ajudar a apagar o incêndio.

O fogo diminuiu, mas não apagou. Continuamos mobilizando e pressionando, porque tem que ter uma estratégia de combate, de cessar o fogo, não só de controle. O controle devia ter acontecido no início. Mesmo com todas as forças lá dentro - Ibama, Corpo de Bombeiros, Exército, SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) dando total apoio, não está sendo suficiente. Continuamos mobilizando e pressionando.

Os Guajajara têm um grupo chamado Guardiões que combate o roubo de madeira na Terra Indígena. Eles estão ajudando no combate ao fogo?

Os Guardiões estão fazendo o combate à exploração ilegal de madeira e combatendo o fogo no local onde estima-se que haja 80 índios Awá-Guajá que vivem isolados. O fogo está rodeando a área onde eles vivem, ainda não está dentro, mas está cercando. Até por isto, os Guardiões estão construindo um Centro de Saberes para ficar para depois, para termos um espaço de troca e de cultura.  Caso algum deles faça contato, tem um espaço ali reservado para que outros Awá-Guajá possam vir para fazer a conversa. Não é uma frente de atração, não é forçar o contato, mas preparar, porque caso eles apareçam, estaremos preparados para o contato.

Estes Awá-Guajá são os que foram visitados pela jornalista Miriam Leitão e pelo fotógrafo Sebastião Salgado no ano passado?

Tem uns que já são aldeados e que moram no norte do estado do Maranhão e tem estes que vivem isolados no sul do estado, na Reserva Arariboia. Miriam Leitão e Sebastião Salgado estiveram com os aldeados.

Os Guajajara têm uma preocupação muito grande com estes índios isolados, de fazer a proteção deles. Os Guajajara estão fazendo a proteção do território não só para nós, mas também para garantir que eles possam continuar lá, vivendo bem da forma como quiserem. Esta é uma decisão deles. Não tem como intervir ou mudar isto.  O que os indígenas e o Estado precisam fazer é garantir a segurança e a proteção deles.

Como é a situação de desmatamento na Reserva Arariboia?

O incêndio hoje não é só um fogo que aconteceu do nada. Ele é consequência total do desmatamento. Há anos que aquela terra é explorada de forma ilegal. As forças responsáveis por cuidar fazem operações pontuais de combate, com avião, com mil polícias, Polícia Federal e isto alarma, né? Quem está lá dentro, sai imediatamente e eles não conseguem pegar. Quando pega, prende quem? Um motorista? Tem que ter uma ação mais estratégica de combater quem recebe esta madeira. Quem manda tirar lá, que são geralmente forças políticas, gente poderosa da política, empresários, estes nunca são atingidos, nunca são alcançados. Então estas operações não têm resultado nenhum. Há anos que acontecem operações.  O que tem que fazer é dar condições para que os próprios indígenas possam fazer este trabalho de proteção e de monitoramento. E o Estado tem que fazer a fiscalização permanente.

Porque nós fazemos a vigilância e o monitoramento, mas o Estado é que tem que fazer a fiscalização. Chegar, abordar, pegar os culpados e punir. Não é a gente que tem que fazer isto.

A fiscalização dos Guardiões tem sido criticada e você mesma disse que eles não gostaram de serem chamados de milícia em matéria no Washington Post. Como surgiu este movimento dos Guardiões e quem são eles?

A ideia dos Guardiões surgiu dentro da própria Terra. De conversas entre os indígenas, das lideranças, de poder ter uma ação própria. Que os próprios indígenas pudessem fazer a proteção do território. Porque há muito tempo a Terra Indígena é invadida, explorada sem controle e não tem esta presença do Estado. Como expliquei, é muito difícil ter este controle.

Os indígenas tomaram a decisão de fazer esta ação de proteção. De cuidar e coibir a entrada de madeireiros. Os madeireiros começaram a provocar muito, a ter conflitos nas abordagens. Temos que admitir também que tem poucos indígenas que são coniventes e vendem a madeira. Não são muitos, são poucos e são mal vistos nas aldeias. Mas se tivesse uma ação efetiva do Estado, isto não aconteceria.

Tem um processo de captação também, não tem? Os madeireiros oferecem coisas?

A gente sabe que a madeira que sai de lá sai praticamente de graça. Na verdade,  índios não vendem madeira, eles dão. Os madeireiros compram por quase nada. Acontece também por falta de políticas públicas. Todo mundo na maior carência, ausência total do Estado em saúde, em educação, em incentivo para produção. Tem todo um contexto que desencadeia este processo de conivência da retirada da madeira. O que reforça cada vez mais a necessidade de presença do Estado, de políticas públicas que venham dar condições para que os indígenas tenham uma vida digna, com liberdade, dentro da própria Terra, que hoje não têm.

O que os Guardiões fazem é perigoso e eles se expõem muito, não?

Já houve confrontos com madeireiros, porque eles entram armados dentro da Terra. Colocam todo mundo em situação de insegurança. Começam a ameaçar os Guardiões como forma de nos inibir para continuarmos deixando eles entrarem. Acaba sendo perigoso para todo mundo. Não só para os Guardiões, mas para todos. Eles não sabem direito quem são os Guardiões – que usam máscaras para esconder o rosto nas ações - então fica todo mundo vulnerável.

E vocês já sentiram alguma diferença em função do trabalho dos Guardiões? 

Eles começaram a fiscalizar há uns dois anos e já diminuiu muito a presença de madeireiros na Reserva. Eles fizeram um trabalho forte, que inibiu muito. Antes eles (os madeireiros) sabiam exatamente quando a polícia entrava. Agora eles sabem que os Guardiões estão lá dentro direto, que é permanente. O que eles tentam é descobrir onde os Guardiões estão atuando, para evitar e ir para outro lado.

E eles estão aproveitando o incêndio para atuar?

Não posso afirmar isto, mas há indícios fortes que eles estão querendo mudar o foco. Que ao invés de ter ação de combate aos madeireiros, que a ação seja contra o fogo. Tem indícios, mas não posso afirmar que são os madeireiros que estão criando novos focos de incêndio.