Um ministro trapalhão quer vender a Amazônia

26/08/2017

Figura apagada até a última quarta-feira (23), quando levou o governo brasileiro a fazer uma das maiores burradas da atual gestão, o ministro Fernando Bezerra Filho, das Minas e Energia, não parece satisfeito com a péssima fama recém conquistada. Em tom indignado, divulgou um vídeo onde tenta defender o indefensável: a liberação de uma área de 47 mil quilômetros quadrados, no coração da Amazônia, para a exploração mineral.   

A Reserva Nacional de Cobres e Associados (Renca), um pedaço de floresta maior que o Espírito Santo, entre o Pará e o Amapá, segundo Bezerra Filho, já está tomada pelo garimpo ilegal, com mais de mil homens e 28 pistas de pouso clandestinas, e o decreto do governo quer, justamente, coibir o dano ambiental. O ministro reforça que a área é de uso mineral, e que a floresta e os índios não serão penalizados. 

A fala de Bezerra Filho soa como escracho. Uma zombaria com as milhões de pessoas aqui e no mundo alarmadas com a degradaçaõ da Amazônia, cada vez mais ameaçada por decisões que levam em conta apenas o seu potencial econômico. 

Se estivesse realmente preocupado com os prejuízos ambientais, bastaria a simples fiscalização. A lei e a polícia estão aí para isso. Por que permitir que a iniciativa privada explore uma imensa área com sete unidades de conservação florestal e duas reservas indígenas? A resposta é óbvia: o governo quer fomentar o potencial da região, rica em cobre, mas, sobretudo, em ouro, e o restante que se dane.

Embora seja o homem errado no lugar errado, Bezerra Filho tem total consciência de que é praticamente impossível uma exploração massiva na região sem que preservação ambiental não fique comprometida.

Sejamos francos: não haverá proteção para conter a ganância das mineradoras. A destruiçãoa é inevitável, garantem todos os ambientalistas. E mesmo os que não são especialistas no tema, reconhecem a gravidade de se entregar um pedaço enorme da Amazônia para a exploração mineral.  

Ao invés de procurar justificar essa trapalhada, literalmente de proporções amazônicas, o ministro das Minas e Energia poderia explicar para a nação porque empresários canadenses ficaram sabendo da extinção da Renca muito antes dos brasileiros, como informa matéria publicada hoje pela BBC Brasil, no R7. Há cinco meses eles sabiam tudo o que só ficamos sabendo no dia 23.

A Reserva Nacional de Cobres e Associados nasceu em 1984 (por ironia no mesmo ano em que veio ao mundo Bezerra Filho) e a sua morte mereceria um amplo debate de todos os segmentos envolvidos. Ela foi criada pelo regime militar por que, já naquela altura, a região estava sendo ocupada por garimpeiros ilegais. Ao contrário da discussão profunda, o País recebeu na última quarta-feira o impacto de que uma gigantesca fatia da maior floresta tropical do mundo ia ser entregue à exploração mineral.

Só Bezerra Filho e os mineradores canadenses sabiam o que ia acontecer. É sobre isso que o ministro deveria falar.

R7 | BR 

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