'Tínhamos mata e rios. Hoje, vivemos de cesta básica'

13/04/2017

São quase três horas de bombardeio de imagens e informações fortíssimas. Martírio, de Vincent Carelli, que estreia nesta quinta, 13, talvez seja mais uma grande reportagem do que um grande filme, mas, seja o que for, é um programa necessário. Carelli, que assina o filme com Ernesto de Carvalho e Tati Almeida, é cineasta e indigenista. Dirige o programa Vídeo nas Aldeias, que forma cineastas indígenas. Há anos, realizou Corumbiara, que venceu o Festival de Gramado e é belíssimo. Fez na sequência Martírio, que ganhou o prêmio do júri em Brasília no ano passado. Ambos integram uma trilogia com Adeus, Capitão, que ainda está em processo.

Martírio integra a Sessão Vitrine, com que a distribuidora Vitrine, em parceria com a Petrobrás, está levando filmes brasileiros importantes a 21 cidades de todo o País. O lançamento ocorre em 30 salas, o que significa que cidades como São Paulo terão mais de uma alternativa de local e horário. Logo no começo, um letreiro informa que Martírio foi produzido pela sociedade civil brasileira. O tema é a luta dos guaranis-caiovás pela retomada de suas terras. Carelli ouve os índios, vai a encontros de ruralistas, ao Congresso brasileiro.

O filme faz o que o jornalismo tem de fazer - dá a palavra a todo mundo, mas tem um partido e, em Brasília, Carelli deixou claro. É a história do Brasil da perspectiva dos índios. O filme vai à origem do imbróglio. Um texto antiquíssimo, da época do Império, que se refere às terras dos índios como devolutas. Tudo começou na Guerra do Paraguai e prossegue, até hoje, nessa outra guerra com o agronegócio, que não reconhece a legitimidade da luta dos guaranis-caiovás. Ruralistas falam em índios paraguaios, dizem que não pertencem às terras em litígio. Os caiovás fazem narrativas orais, mostram seus cemitérios. Carelli diz que fez Martírio para esclarecer o drama. Acrescenta que a oposição entre a sobrevivência dos índios e a manutenção do agronegócio, tão decisiva para a economia brasileira neste ano de safra recorde de grãos, é um falso problema. Tem lugar para os índios e tem lugar para o agronegócio. Uma coisa não impede a outra. Os índios não estão pedindo nenhum absurdo.

O Estado de S. Paulo | BR | Caderno 2 | Página C6

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