Mauricio Voivodic, engenheiro florestal: "Cerrado está sendo mais desmatado que Amazônia"

10/08/2017

“Tenho 38 anos e sou diretor do WWF Brasil há seis meses. Vim do Imaflora, uma ONG brasileira onde fiquei 17 anos. Sou formado pela USP e tenho mestrado em Ciência Ambiental, também pela USP. Defendo a preservação dos biomas por entender que é preciso usar os recursos naturais sem acabar com eles.”

Conte algo que não sei.

A taxa de desmatamento do cerrado brasileiro é maior que a da Amazônia, e já há uns três ou quatro anos. Os brasileiros têm a visão de que a Amazônia é o bioma brasileiro que está sendo mais destruído, mas, a partir de 2014, a taxa de desmatamento na Amazônia caiu muito, e a do cerrado continua crescendo quase em silêncio.

Quais os motivos?

A redução na Amazônia veio após a implantação de políticas públicas muito fortes de controle, com investimento em fiscalização. O cerrado foi totalmente relegado a segundo plano por governo, sociedade e setor privado. As empresas assumiram compromisso de desmatamento zero na Amazônia, mas resistem até hoje a assumir o mesmo compromisso no cerrado, onde a soja está se expandindo.

Qual a extensão do problema para a biodiversidade?

Nos últimos dois anos, o país perdeu, em média, 9,5 mil quilômetros quadrados de cerrado por ano. Já perdemos 50% da área total, e a perda é de 2% a 3% anuais. O cerrado é área de altíssima biodiversidade. Destruí-lo está provocando alta taxa de extinção de espécies animais. Artigo da “Nature” mostra que a taxa de extinção no cerrado é a mais alta de todos os tempos. É um ambiente sensível, frágil.

Neste ritmo, o cerrado por acabar em pouco tempo?

Vai acabar! E o principal ataque é nas maiores áreas remanescentes, no miolo entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nesta região, o número de unidades de conservação é muito menor do que deveria. O Brasil se comprometeu internacionalmente a proteger pelo menos 10% de cada bioma. A Amazônia já está 30% protegida com unidades de conservação e terras indígenas, mas o cerrado não chega a 5%. Na Amazônia, o desmatamento foi de quase 8 mil km² no período 2015/2016.

É possível produzir mais sem destruir ainda mais o cerrado?

Dá para produzir soja atendendo à demanda mundial por alimentos sem derrubar um hectare de ambiente natural. Há 70 milhões de hectares de pastagem degradada no Brasil. Este é o melhor lugar para expandir a agropecuária, tanto do ponto de vista econômico quanto do ecológico. São áreas com potencial produtivo.

Por que, então, o desmatamento continua à toda?

Na fronteira do desmatamento, a lógica é a da especulação da terra e não a da produção de soja. Mais à frente, este desmatamento especulativo vai cair nos ombros dos grandes compradores de soja, porque o mercado internacional vai cobrar. Pela ausência do Estado, esses produtores se infiltram nas áreas mais baratas, que ainda têm florestas.

O que o WWF defende para tentar impedir que isso ocorra?

Que a sociedade faça um grande pacto de proteção do cerrado, e que o setor privado ajude. Reconhecemos que o desmatamento não se estanca de um dia para outro, mas queremos que as principais traders do setor assumam uma data específica em que não mais haverá desmatamento no cerrado para expansão da soja, assim como ocorreu na Amazônia com a “moratória da soja”.

A batalha não será mais complicada que na Amazônia?

Tem sido muito difícil, mas estou otimista. Começamos a ver sinais de grandes compradores de que a situação é inaceitável. Chegamos a um ponto de virada na percepção do setor privado.

O Globo | BR | Sociedade

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