Como impulsionar uma economia de floresta em pé na Amazônia

15/08/2017
Carlos Nobre

Como zerar o desmatamento na Amazônia?  Quando as florestas são desmatadas para pecuária, agricultura e exploração madeireira, os impactos negativos são percebidos em múltiplas dimensões, ambiental, econômica e social. Mas reduzir o desmatamento não é suficiente, se não acompanhado de estratégias de desenvolvimento sustentável para aumentar o bem-estar e qualidade de vida dos Amazônidas. Entretanto, a dura realidade é que a economia global demanda carne e soja mais do que outros produtos da floresta e isto induz uma pressão incessante por novos desmatamentos e expansão da fronteira agropecuária indefinidamente.  

A redução observada nos desmatamentos desde 2005 até 2014 na Amazônia brasileira—sem qualquer diminuição da produção de produtos primários como carne e grãos, ao contrário com crescente produção durante este período—resultou de um bem-sucedido programa de políticas públicas alicerçadas em expansão das áreas protegidas e demarcação de reservas indígenas—hoje, cerca de 50% da Amazônia brasileira encontra-se sob algum tipo de proteção—, redução de crédito bancário que acelere desmatamentos e, principalmente, uma novo papel para fiscalização, que reduziu o raio de ação para o predominante caráter ilegal dos desmatamentos.

Necessitamos urgentemente um novo paradigma econômico para a floresta amazônica baseada em algumas profundas transformações e todas elas requerem ciência.

Dos quase 800 mil km2 de área desmatada de floresta por corte raso na Amazônia brasileira, cerca de ¼ foi abandonada, principalmente pastagens pouco produtivas. Isso em si já mostra o uso não efetivo de recursos naturais e um modelo econômico insustentável a médio e longo prazos.

Necessitamos urgentemente um novo paradigma econômico para a floresta amazônica baseada em algumas profundas transformações e todas elas requerem ciência.  A primeira estratégia é agregar valor aos produtos da biodiversidade Amazônica produzidos localmente. Podemos citar um bom exemplo do papel de uma nova bioindústria: o açaí. Até cerca de 20 anos atrás, a polpa do fruto açaí da palmeira Euterpe oleracea que cresce na Amazônia era um alimento básico consumido apenas pela população local. A bioindustrialização da polpa do açaí abriu os mercados mundiais a vários novos produtos que incluem alimentos, suplementos nutricionais, cosméticos, corantes e óleos industriais em todo o mundo. A maior parte do desenvolvimento de novos produtos foi feita pela indústria de transformação da Califórnia, a partir da empresa norte-americana Sambazon, mostrando o papel de inovação tecnológica para agregar valor a produtos da biodiversidade e valorização da marca “Amazônia”. A produção anual de polpa ultrapassa as 200 mil toneladas e contribui com mais de US$ 2 bilhões para a economia da Amazônia, atrás somente na economia regional de produtos naturais da produção de carne e laticínios e se aproximando do valor econômico da extração madeira, esta de resto ainda repleta de ilegalidades e um grande vetor para futuro desmatamento.

É de se perguntar se a indústria de transformação brasileira não poderia ter criado tais novos produtos na cadeia do açaí. É fato que esta nova e importante bioindústria se beneficiou da capacidade de inovação de laboratórios do Vale do Silício da Califórnia. Este exemplo mostra um caminho para a necessidade de incrementar a capacidade de inovação de uma nova bioindústria Amazônica. Isto depende, por um lado, de pesquisadores e engenheiros em instituições brasileiras se debruçarem sobre a busca de soluções e conhecimentos que embasem este novo modelo. Requer apoio de fundos públicos para laboratórios de referência sobre biologia Amazônica, pesquisa básica e aplicada, mas principalmente requerem bioindústrias inovadoras com capacidade de P&D para buscar estes novos caminhos.

Abertura de novos nichos de mercado também trás benefícios aos produtores locais do açaí. Sistemas agroflorestais bem manejados trazem rendimento líquido anual de mais de US$ 1.000 por hectare, que representa 5 vezes o rendimento de soja do agronegócio e mais de 10 vezes a rentabilidade da pecuária na Amazônia.

C&T podem encontrar novos usos para produtos da biodiversidade, com escalonamento do valor agregado. Por exemplo, a Embrapa usou o açaí para produzir um marcador para placa bacteriana dentária que agora está pronto para uso comercial em pasta de dente e produtos de higiene bucal.

Não seria difícil conceber um novo paradigma econômico, com exploração sustentável de algumas dezenas de produtos da biodiversidade, que, em menos de duas décadas, poderia sobrepujar a economia de substituição da floresta. Mais pesquisas são necessárias para identificar novos usos de produtos naturais e aumentar a produção, conjuntamente ao desenvolvimento de realmente de uma bioindústria distribuída por toda Amazônia.  Este novo modelo será objeto de um próximo artigo.

 

Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e Sênior Fellow do WRI Brasil.