Como a imprensa cobre o desmatamento na Amazônia?

07/08/2015

 

As mudanças climáticas permearam o noticiário sobre o desmatamento durante o primeiro semestre.  É o que revela o monitoramento de 44 jornais diários das cinco regiões brasileiras e quatro revistas semanais, realizado pelo projeto Mídia e Amazônia. A pesquisa seguiu a metodologia de Análise de Conteúdo e deu origem à avaliação quantiqualitativa da cobertura jornalística do desmatamento na Amazônia, mês a mês, de janeiro a junho de 2015.

Confira abaixo o retrato mensal da cobertura:

Janeiro

Mudanças climáticas e crise hídrica dominaram o noticiário de janeiro

Garimpo e monitoramento do desmatamento também se destacaram. Os textos analisados apresentaram indicadores positivos no que diz respeito à menção a causas e impactos do desmatamento. Mas, infelizmente, a cobertura não avançou na discussão sobre as soluções para o problema. Os programas governamentais também foram negligenciados.

Fevereiro

Políticas ambientais e desmatamento na Amazônia são destaques da imprensa em fevereiro

Evidenciaram-se também as matérias sobre questões fundiárias e grilagem de terras, que repercutiram o aniversário de 10 anos da morte da missionária Dorothy Stang e a prisão do grileiro Ezequiel Antônio Castanha. O fomento a atividades produtivas sustentáveis foi pouco noticiado, referindo-se principalmente a operações de crédito do Fundo Amazônia.

Março

Sistemas de monitoramento da Amazônia alertam e imprensa cobre dados em março

A cobertura foi impulsionada pela divulgação dos dados do Deter, porém, o mês registrou índices considerados baixos de menção a causas e soluções para o desmatamento. O quadro se repete na análise dos impactos gerados pelo problema. O Código Florestal e os programas governamentais também foram menos lembrados. 

Abril

Imprensa relaciona desmatamento, mudanças climáticas e políticas ambientais em abril

Dentre os aspectos que contribuíram para a qualificação do conteúdo, destacou-se a menção a indicadores de monitoramento e a políticas governamentais. Registrou-se também a ampla participação da sociedade civil organizada na construção das narrativas. No quesito desenvolvimento, os textos concentraram-se no aspecto sustentável.

Maio

Imprensa amplia discussão sobre o desmatamento mas ignora Código Florestal na cobertura de maio 

As notícias também repercutiram ações de fiscalização que resultaram na aplicação de multas e na prisão de envolvidos na exploração ilegal de madeira. Mecanismos específicos de contenção de emissões como REDD e o pagamento de serviços ambientais foram contemplados na cobertura do 10º Fórum de Governadores da Amazônia Legal.

 

Junho

Declarações sobre mudanças climáticas impulsionam noticiário sobre desmatamento em junho

O noticiário cobriu o anúncio de metas feito pela presidente Dilma em visita aos EUA e a divulgação da encíclica papal sobre o aquecimento global. A referência a causas, soluções e impactos do desmatamento foi pouco expressiva, especialmente se comparada a períodos anteriores.

 

 

 

Metodologia da pesquisa

Os dados apresentados são resultado do monitoramento sistemático das narrativas sobre o desmatamento na Amazônia. O objetivo é identificar as principais tendências da cobertura sobre o tema na mídia impressa brasileira.

A metodologia adotada pela ANDI – Comunicação e Direitos na execução deste trabalho fundamenta-se nos princípios da Análise de Conteúdo. Entre outros aspectos relevantes, esse método de investigação permite:

  • Sistematizar e descrever quantitativamente os conteúdos abordados pela mídia.
  • Identificar e quantificar a ocorrência de características específicas do trabalho jornalístico.
  • Fazer inferências a respeito da mensagem e dos significados presentes.

Nesse tipo de investigação, as informações explicitamente apresentadas nos textos são captadas e avaliadas. A análise do conteúdo detém-se àquilo que pode ser objetivamente observado e cujos resultados podem ser numericamente apresentados.

Universo de análise

O universo de análise desse estudo compreende um conjunto de 44 jornais e quatro revistas, monitorados diariamente para a produção de infográficos mensais. Dos 44 veículos, seis são considerados de circulação nacional e 38 de alcance regional, distribuídos por todo o território brasileiro.

A seleção de notícias

O levantamento dos textos foi realizado por meio de uma ferramenta de busca eletrônica, a partir de um conjunto de palavras-chave. Inicialmente foram selecionadas todas as matérias (reportagens, artigos, entrevistas, editoriais, colunas ou notas de colunas assinadas) que abordassem minimamente o desmatamento na Amazônia. Esses textos foram distribuídos em três categorias que indicam a dimensão da cobertura sobre o tema:  

Dimensão mínima: o desmatamento na Amazônia aparece em uma linha da matéria, sendo mencionado de maneira absolutamente lateral.
Dimensão média: o desmatamento na Amazônia dá suporte à discussão principal do texto ou é parte importante dele, aparece em um parágrafo ou mais.
Dimensão alta: o desmatamento na Amazônia é o foco central da matéria.

As narrativas com dimensão média e alta foram classificadas com base em um questionário que contemplava desde questões estritamente ligadas aos aspectos jornalístico até variáveis especificamente relacionadas ao fenômeno do desmatamento e seus desdobramentos. Já as narrativas com dimensão mínima foram contabilizadas e classificadas parcialmente. Ao abordar lateralmente o tema de interesse, os textos com dimensão mínima não apresentariam conteúdo suficiente para análise, o que justifica a definição desse critério. Matérias com menos de 500 caracteres não foram consideradas no levantamento.